QUANDO OGUM QUERIA SER AWO - IROSO TURARA

QUANDO OGUM QUERIA SER AWO - IROSO TURARA

Orunmila vivia em uma casa próxima à de Ogum. Toda vez que Ogum passava pela casa de Orunmila, via-o vestido de branco, limpo, sentado no portal e se perguntava: Em que trabalha Orunmila, que eu nunca o vejo sujo?
Um dia, Ogum, cansado de trabalhar no monte, foi à casa de Orunmila para consultar o oráculo. Saiu este Ifá, que lhe disse: Você está fazendo uma coisa, mas não nasceu para realizar tal tarefa. Ogum contestou: O que estou fazendo é trabalhar no monte. Orunmila respondeu: Você não é ferreiro? Trabalhe na ferraria. Ogum então disse: O que eu quero mesmo é fazer Ifá (tornar-se Babalawo). Orunmila respondeu: Para isso há tempo.
Depois de certo tempo, Orunmila iniciou Ogum no Ifá sem consultar Oxalá. Como Ogum era ferreiro, ele mesmo fabricou seu tabuleiro (opon) e seu rosário de adivinhação (opelé) de ferro, ambos de tamanho enorme.
Quando Ogum saiu do quarto de iniciação, disse a si mesmo: Bom, agora vou trabalhar com Ifá para viver sempre limpo. E começou a lançar o opelé de ferro sobre o tabuleiro, fazendo um estrondo tremendo. Oxalá, que vivia ali perto, dizia: Que ruído ensurdecedor é esse que não posso suportar?
Quando Oxalá decidiu sair para ver o que estava acontecendo, ao passar pela casa de Ogum, viu-o consultando e perguntou: Ogum, o que você está fazendo aí? Ogum respondeu: Estou me consultando porque Orunmila me fez Ifá e agora sou Babalawo.
Oxalá foi ver Orunmila e o interpelou: Por que você não consultou comigo antes de fazer Ifá para Ogum? Não vê que agora não há quem fabrique armas para a guerra? Não haverá mais quem trabalhe os metais, já que Ogum não quer mais trabalhar. Veja como você vai consertar isso. E foi embora.
No dia seguinte, Orunmila disse a Ogum: Amanhã, quando voltar, traga o seu Ifá, pois preciso fazer uma coisa nele. Ogum obedeceu, pois Orunmila era seu Oluwo (padrinho). Orunmila retirou da bacia a mão maior (o conjunto principal de sementes), deixando-o apenas como um Awofakan (um nível menor de iniciação).
Quando Ogum chegou em casa, notou que faltava a parte principal do seu Ifá. Retornou à casa de seu padrinho para reclamar, e este lhe disse: Oxalá ordenou isso porque diz que você não nasceu para ser Awo. Ao ouvir isso, Ogum sacou seu facão e dirigiu-se à casa de Oxalá, cortando cabeças pelo caminho.
Oxalá, que havia se consultado antes, tinha colocado uma bandeira branca em sua porta e uma tigela com água fresca (omi tuto). Quando Ogum chegou, sujo de sangue e com o facão na mão, perguntou a Oxalá por que ele havia dito aquilo a Orunmila.
Oxalá, calmo, pois sabia que se respondesse de forma agressiva Ogum lhe cortaria a cabeça, disse: Ogum, está muito bem, mas você sabe que toda vez que chega à minha casa tem que me saudar. Ogum deitou-se no chão para saudar e a bandeira branca caiu sobre ele, tirando-lhe a fúria. Depois, Oxalá lhe deu água fresca para beber e disse: Olha, meu filho, eu te dou o que você quiser, mas você me faz mais falta fabricando armas do que consultando as pessoas. Por isso eu disse aquilo, meu filho. E Ogum ficou satisfeito com as palavras de Oxalá.